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Ponto G e outros pontos
de interrogação
(*)
Dra. Iracema Teixeira
......Há bem pouco tempo, questões ligadas à
sexualidade feminina passaram a ser discutidas no meio acadêmico e
ganharam espaço na sociedade, através da mídia. Porém, como em todo
assunto novo, muitos mitos surgiram.
......Inicialmente a discussão estava no
famoso dilema orgasmo clitoriano X orgasmo vaginal. Freud afirmou que o
orgasmo clitoriano era típico de mulheres imaturas e que o vaginal
caracterizava uma maturidade sexual. Isso gerou (e ainda gera) algumas
aflições – a busca pelo orgasmo vaginal e/ou pela maturidade.
......Entretanto, face às várias pesquisas
realizadas posteriormente (Kinsey e Masters e Johnson) foi constatado que
o mais freqüente é o orgasmo clitoriano e que o vaginal depende de vários
fatores, além de ser deflagrado pela manipulação indireta do clitóris.
......O clitóris é um órgão extremamente
sensível e pode ser considerado como sendo um dos grandes responsáveis
pelo orgasmo feminino. Seja pela sua manipulação direta, através do toque
manual ou do sexo oral, por exemplo, ou mediante algumas posições sexuais
que exercem uma pressão no Monte de Vênus, estimulando o clitóris
indiretamente, o orgasmo poderá ser atingido.
......Apesar da experiência orgásmica
depender da soma de vários fatores – intensidade do desejo e da excitação
sexual, a qualidade da interação do casal, a capacidade de entrega às
sensações eróticas, dentre outros - não é possível classificá-lo como
certo ou errado, maduro ou imaturo. O que importa é vivenciar um orgasmo
gratificante, se clitoriano ou vaginal não interessa.
......Outro aspecto gerador de aflições diz
respeito à tirania do orgasmo, imposta nos dias de hoje. No início do
século o orgasmo feminino era considerado como uma doença – furor uterino
ou histeria.
......Atualmente a mulher que não o tem é
considerada problemática; passou a ser obrigação e, com isso, surgiu a
busca frenética por ele. ......A ansiedade
ocupou o lugar do prazer. Como se não bastasse, surgiram o badalado ponto
G e a ejaculação feminina – não basta ter orgasmo, a mulher tem que ser
multiorgásmica, seus orgasmos têm que ser intensos e ainda ejacular. Isso
mesmo, ejacular.
......Alguns profissionais mencionam a
existência da ejaculação feminina. Semelhante à masculina, a mulher
liberaria, pela uretra, um líquido durante um orgasmo de grande
intensidade, este estaria associado à estimulação do ponto G.
......Por volta da década de 60, um
ginecologista alemão Ernest Gräfenberg afirmou sobre a existência de uma
estrutura na genitália feminina, localizada na parede anterior do canal
vaginal, que seria um resíduo de tecido embrionário, com formatos
anatômicos diferentes, responsável pela potencialização do orgasmo da
mulher e, conseqüente, ejaculação; porém, parece que nem todas as mulheres
teriam este privilégio.
......Iniciou-se a saga em torno da
localização do ponto G, a fim de estimulá-lo com o objetivo de conseguir
atingir um orgasmo de maior intensidade.
......São pontos bastante polêmicos no meio
acadêmico, pois a única evidência é a falta de provas científicas que
asseguram a existência, tanto do ponto G quanto da ejaculação feminina.
......Existem muitas especulações a respeito,
mas não dados seguros. ......Sabe-se que no
homem a ejaculação consiste na expulsão, durante o orgasmo, do sêmem que é
composto por uma substância produzida pela próstata e também pelos
espermatozóides; esse líquido prostático é alcalino, leitoso, rico em
proteínas, colesterol, enzimas, responsável pela cor e odor do sêmem e tem
a finalidade de garantir a vida dos espermatozóides.
......O que acontece na mulher é bem
diferente; quando excitada sexualmente, a vagina fica molhada devido a
secreção de um líquido pelas paredes vaginais e por duas glândulas
localizadas bem próximas à sua entrada (glândulas de Bartholin). À medida
que a excitação cresce o fluxo aumenta, podendo escorrer para fora,
principalmente durante o orgasmo. Pode também ocorrer a liberação de uma
pequena quantidade de urina, devido as contrações pélvicas durante o
orgasmo, tal como nos casos de incontinência urinária de esforço.
......Questiona-se, portanto, a veracidade
das afirmações sobre a ejaculação feminina, pois, não foi, até agora,
encontrada em sua anatomia, uma glândula capaz de produzir o suposto
líquido ejaculado.
Para pensar...
......Até
que ponto está utilizando-se de um modelo masculino para falar sobre a
sexualidade feminina? A maioria das mulheres não consegue encontrar o
ponto G, muito menos ejacular, gerando, com isso, aflições e angústias.
Estaríamos ainda presos a um referencial masculino, sem se apropriar,
por conseqüência, do universo feminino?
......Ponto G, ejaculações femininas,
orgasmos intensos e múltiplos, não seriam tentativas de genitalizar a
experiência sexual?
......A saúde sexual está na possibilidade de
viver plenamente as sensações eróticas que emergem do contato (com tato)
físico e emocional entre duas pessoas. A sensibilidade ao toque é
extremamente variável; existem centenas de pontos erógenos que se
localizam dos pés a cabeça. Em realidade, pode-se dizer que o maior órgão
sexual é a pele que, quando explorada com criatividade e cuidado, pode
levar qualquer um aos “céus”.
......A busca do ponto G pode ser uma
adorável brincadeira durante a relação sexual, juntamente com outras que
venham a incrementar o prazer. Assim, cabe ao casal procurar entregar-se à
experiência do encontro sexual e viver as múltiplas possibilidades de
obter prazer e amar.
(*) Dra. Iracema
Teixeira é psicóloga somático - transpessoal, com especialização
em Sexualidade Humana, e coordenadora do Grupo de Mulheres –
"Descobrindo o Prazer".
Este seu
artigo foi publicado no saudenainternet.com.br.
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