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Nova febre virtual, o Second Life,
estimula debate sobre alterações emocionais reais
Apesar de ter ganhado visibilidade,
ainda é muito complicado freqüentar o ambiente virtual.
Mas, será que “viver” lá é saudável?
A internet realmente mudou a vida das
pessoas. Apesar do verbo no passado, essa mudança está cada vez mais
presente na vida dos “avatares”... Avatares?
Sim, avatares são pessoas virtuais.
Moram em uma cidade como a nossa, que tem carros, ruas, viadutos,
prédios, esquinas e empresas, onde tudo e todos se relacionam como no
mundo real. Empresas como a Philips, o Unibanco e até o jornal o Estado
de S. Paulo estão lá ou têm planos.
Enfim, depois do e-mail, do messenger,
do orkut e do recente Second Life, as vidas virtuais e reais não são
mais as mesmas. Uma espécie de jogo, o Second Life é um ambiente virtual
em 3D, totalmente criado por seus habitantes, que também são
representados por imagens 3D chamadas avatares. Todo internauta pode se
cadastrar no site
www.secondlife.com, inserir seus dados reais e
criar um nome de usuário virtual com senha. A partir daí, baixa o jogo
no computador, onde é possível criar uma pessoa como você, com a
aparência física que quiser, com as características que achar melhor.
Esse é o avatar.
Os avatares, representantes de cada
pessoa real, se relacionam no Second Life, namoram, brincam, brigam,
disputam e, porque não, fazem negócios. Por isso, as empresas estão
inaugurando sedes virtuais. A Philips, por exemplo, tem o objetivo de
testar novos produtos virtuais em seu showroom, que vão sendo
construídos pelos habitantes, antes de lançar no mundo real.
Mas, nem tudo é luz nessa “segunda
vida”. Apesar de ter ganhado recentemente a mídia, o Second Life traz
limitações. De acordo com o diretor de projetos web da Kogut e-business
solutions, Marcelo Kogut, somente podem rodar o jogo
computadores poderosos com conexão de alta velocidade, o que limita o
número de usuários ativos, principalmente no Brasil. Segundo o Ibop
NetRatings, em fevereiro, 210 mil pessoas se conectaram. No mês
seguinte, o número caiu para 142 mil. Todos os meses há muita gente
entrando pela primeira vez, mas também muita gente desistindo da
brincadeira.
Além disso, são necessárias muitas
horas de aprendizado para conseguir aprender a lidar com o programa, e
nem todo mundo tem tempo para isso.
Por que empresas estão inaugurando
sedes virtuais?
A
visibilidade que o Second Life ganhou na mídia está chamando atenção de
muitas empresas que estão se aventurando dentro do espaço sem ter muita
noção do que isso representa ou do que realmente querem encontrar e
oferecer neste universo virtual.
A maioria das ações tem como objetivo
principal dar exposição à marca e associá-la à inovação, mesmo que para
uma audiência ainda limitada. A questão é que boa parte dessas
iniciativas não trouxe resultados práticos até o momento. Basta dar uma
volta no ciberespaço e verificar que muitas empresas estão quase sempre
desertas ou abandonadas. Outro problema é que uma parte dos habitantes é
contrário à invasão de empresas e começa a protestar, o que pode trazer
conseqüências negativas à marca. “Nós, da Kogut, estamos analisando esse
ambiente com cautela, pois não atingiu um nível tecnológico
satisfatório. Ainda não sabemos como medir com precisão o retorno que
uma marca ou negócio pode obter ao entrar no Second Life. Só o tempo
poderá dizer...”, afirma Marcelo.
Lado bom, lado ruim: é preciso
maturidade para saber dos riscos e conseqüências
Novas
tecnologias podem ser ótimas para os seres humanos, se houver maturidade
para lidar com elas a ponto de saber de seus riscos e conseqüências.
De acordo com a psicóloga do Hospital
e Maternidade São Camilo, Rita Calegari, todo avanço
tecnológico influencia o ser humano, suas relações afetivas com o mundo
interno e externo. Ela afirma que a experiência virtual tem o lado bom e
o lado ruim.
Se o virtual for uma representação do
real para expressar anseios, idéias, desejos de forma experimental e sem
conseqüências na realidade concreta, pode ser considerada uma
experiência positiva. “É como realizar fantasias com o grau mínimo de
exposição ou risco”, explica Rita.
No caso de as pessoas se excederem e
vivenciarem situações virtuais que não estão prontas emocionalmente para
administrar, pode surgir uma experiência negativa. “É fundamental
avaliar, em qualquer situação, se a aprendizagem pode ficar debilitada
ou cindida... Não sendo completa, não possibilita o crescimento
interior”, afirma.
Rita alerta para o uso desmedido do
ambiente virtual por crianças e adolescentes, que ainda não têm a
personalidade completamente formada. “Receio que essa ferramenta na mão
de jovens ou imaturos possa trazer conseqüências desastrosas do ponto de
vista emocional”, afirma.
Se a pessoa se identificar
excessivamente com seu “avatar”, poderá se dedicar mais à construção
dele do que a si mesma. O tempo que deveria ser usado para viver, será
usado para sonhar. “É muito mais fácil pensar que sentir, idealizar que
realizar, teorizar que praticar”, completa.
Mas, que conseqüências serão essas?
Estamos falando em distúrbios de ansiedade, psicóticos, conflitos nos
relacionamentos, repressões emocionais, recalques, melancolia e até
depressão. Tudo isso está associado ao mundo interno bombardeado pela
realidade virtual. “Pessoas com pequenos desajustes ou sintomas, poderão
potencializá-los, tornando-os doenças!”, explica.
Para evitar esse tenebroso ambiente
real, a dica é se proteger de forma regrada da exposição ao mundo
virtual. Não precisa ficar longe das novas tecnologias. Crie seu perfil
no orkut, seu avatar no Second Life, mas não perca muito tempo com eles
e faça como a Rita, que acredita que para ser feliz, é preciso
simplicidade. “A tecnologia está aí para facilitar nosso cotidiano e não
para escravizar”, conclui. |