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EDITORIAL
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UMA MULHER DETERMINADA
Nascida na Hungria, veio para o Brasil aos quatro anos
de idade junto com seus pais, fugindo dos perigos da Grande Guerra, depois de
terem a casa tomada pelos inimigos.
Como pretendessem voltar para a Hungria, colocaram
Julinha (como ela gostava de ser chamada), aos seis anos de
idade, em uma escola húngara, em São Paulo, para que ela aprendesse a ler
e escrever em seu
idioma natal.
Porém, três anos mais tarde, sua mãe faleceu e seu pai
decidiu voltar sozinho para a Hungria, deixando a pequena Julinha
sob a guarda do irmão mais velho e sua esposa.
Aí começaram os desafios da vida para Julinha.
Com a difícil situação daquela época e a falta de
orientação adequada, seu irmão e sua cunhada acharam conveniente torná-la
a empregada da casa. Assim fazendo, deram-lhe apenas o mínimo necessário,
negando-lhe o direito à infância.
A única bonequinha que teve, contava que acabou caindo
na privada, e ao pedir ajuda para pegá-la, deram a descarga.
Esse tratamento se prolongou por toda a infância, até a
adolescência de Julinha.
Submetida a todos os trabalhos da casa pelo irmão e sua
esposa, havia ainda uma legião de filhos, que nasciam quase que
anualmente, aumentando suas tarefas com um número sempre crescente de
bebês e com a cunhada, que vivia de resguardo.
Julinha, determinada a vencer os desafios
que a vida lhe impunha e a sair daquele inferno, aproveitou a experiência
adquirida, cuidando da cunhada em seus partos, doenças e recuperações, e começou a fazer um curso de enfermagem à noite.
Saía logo depois de servir o jantar para a família do
irmão, guardando em seu armário um pedaço de pão, pois sabia que ao voltar
da escola só encontraria louça suja dentro da pia.
Assim começou a se preparar para trabalhar em um
hospital. E conseguiu!
Adulterando seus documentos para 18 anos, idade em que
era permitido começar a trabalhar nessas instituições, conseguiu uma
colocação no
Hospital Samaritano, como ajudante de enfermagem.
Determinada a vencer na vida, com o passar dos anos,
seu empenho no trabalho associado à dura economia de vida que se impunha,
permitiram que guardasse um dinheirinho. Junto com uma amiga, montou uma
loja de artigos para senhoras bem em frente ao Hospital Samaritano.
Maravilhoso! E as coisas iam bem mesmo.
Até que a amiga, com
olhos grandes sobre a renda da lojinha, esqueceu-se da amizade e deu-lhe tamanho
desfalque
que a obrigou a encerrar os negócios e a responder por vários processos em
que foi envolvida.
A situação ficou muito difícil!
Cheia de dívidas que não tinha feito, ainda acabou
perdendo o emprego no Hospital, em virtude dos processos que envolviam seu
nome.
Tinha lutado tanto para crescer e não podia acreditar
que estava naquela situação, sem perspectivas.
Enfim, graças à luz Divina, alguns conhecidos decidiram
ajudá-la e assim conseguiu um trabalho como enfermeira da matriarca de
uma família nobre da época, que sofria de distúrbios mentais.
Logo Julinha descobriu porque ninguém
parava naquele emprego e, é claro, sentiu na própria pele os problemas desse motivos.
Como sua situação fosse muito crítica, sem a menor
condição de arcar com o aluguel de um quarto, nem com a própria
alimentação
teve que ficar naquele emprego. Ali, ela tinha um canto para dormir, comida
e um salário. Em contrapartida, se submetia a todo tipo de
humilhação e perigos que um "louco" pode impor a quem dele trata.
Mas, Julinha jamais se dava por vencida e
batalhava o tempo todo para conquistar uma situação melhor. Graças à sua
dedicação e paciência com aquela senhora, por mais de oito anos, o
patriarca da família a premiou com uma casinha à Rua Cajahíba, no pobre e
longínquo bairro
da Pompéia de então, em São Paulo.
Seu sofrimento diminuiu, uma vez que passou a ter o
refúgio de sua casinha nas poucas horas de folga durante a semana.
Depois da morte da matriarca, ainda cuidou por um bom
tempo do filho da família, que sofria do mesmo
mal que a mãe, até que encontrou sua cara metade - um
brasileiro vindo do Mato Grosso para ganhar a vida em São Paulo - e
casou-se.
Juntos, trabalharam muito para construir a vida,
enfrentando e vencendo toda sorte de dificuldade que os atropelavam pelo caminho.
Julinha fazia massagens em domicílio para
senhoras da alta sociedade, enquanto seu marido trabalhava como madeireiro,
viajando muito em busca das melhores "toras".
Ela trabalhou até a véspera do nascimento de sua primeira filha,
e depois do nascimento, as necessidades não permitiram que parasse,
então levava sua filha na casa das madames, colocando-a em cadeiras no
começo e depois, amarrando-a com lençóis aos pés das camas das clientes,
para que ela não quebrasse nada da casa.
Teve mais dois filhos - uma
menina e um menino. Viveu bons momentos, com saúde e alegria.
O menino era o sonho de seu marido. Quando conquistaram
uma vida mais tranquila e estável, ela engravidou e tornou realidade o
sonho dele. No entanto, quando esse menininho nasceu, seu marido teve
diagnosticado um câncer no omoplata e não resistindo à doença, faleceu onze
meses após o nascimento do garoto tão esperado.
Julinha não acreditava!!!
Sozinha outra vez, com três filhos e uma série de
compromissos que não conhecia e outros com os quais não estava acostumada
a lidar.
Além da demora em receber sua primeira pensão de viúva,
a companhia na qual seu marido havia feito seguro, se negou a pagá-lo,
alegando que ele sabia da sua doença quando o contratou.
Mais ainda. Parte do pouco dinheiro que conseguiu fazer
com a venda de alguns bens móveis foi desviada por aqueles que
diziam querer ajudá-la.
Mas Julinha jamais desanimou!
Criou e educou seus três filhos, lutando muito,
enfrentando e vencendo a seu modo todas as tempestades.
Vitoriosa, essa mulher determinada foi a responsável
pelo desenvolvimento de três pessoas de caráter, honestidade e humildade
mas, que lhe copiaram a altivoz e o brio.
Viu todos construírem suas vidas e até lhe darem netinhos.
Agradecia sempre a Deus por todas essas graças.
Hoje, Julinha descansa ao lado d'Ele,
certamente num
jardim de margaridas, sua flor preferida.
Julinha é a mãe do
Mulher de Classe. Inspiradora e merecedora de todas
as homenagens.
Na passagem do dia Internacional da Mulher - 8 de março -
Julinha dá a lição, dá o exemplo e, principalmente o alerta - a
mulher não precisa de um dia no calendário, nem de homenagens sociais. Uma
mulher precisa apenas de auto-estima e determinação para marcar sua passagem pela vida
das pessoas.
Julinha marcou!
A essa mulher maravilhosa rendemos nosso preito de
saudades, honrados e orgulhosos de tê-la tido em nossas vidas.
Mulher de Classe
março/2010
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