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Amigos, mas não para
sempre.
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......Aos 3 anos, Gabriella Riboldi é uma
menina falante e alegre. Adora brincar com outras crianças no playground
do prédio onde mora, em São Paulo. Em outros momentos, porém, Gabriella
passa horas e horas imersa em conversas com seus dois amigos invisíveis,
Gabaganga e Guluguingui. Tão divertidos quanto seus estranhíssimos
nomes, eles sempre estão dispostos a brincar. E fazem tudo o que
Gabriella quer. Gabaganga e Guluguingui, por exemplo, só conversam com
gente grande se a menina deixar. Por quê? "Porque eles são de
mentirinha", responde Gabriella. Ela fala baixinho, em tom de segredo,
para em seguida dar um sorriso maroto.
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......Um dos poucos especialistas a se
debruçar sobre o universo mágico das crianças foi o suíço Jean Piaget
(1896-1980), pioneiro nas pesquisas sobre a construção do conhecimento
infantil. Mas ele não se aprofundou na questão dos amigos imaginários
porque o que mais lhe interessava era desvendar os mecanismos do
desenvolvimento cognitivo. Relegados a segundo plano pelos estudiosos,
os companheiros invisíveis acabaram por ser vistos como perniciosos –
sintoma de crianças inseguras, solitárias e até vítimas de neuroses.
......Nos últimos anos, no entanto, os
amigos de faz-de-conta foram reabilitados. "A convivência com amigos
imaginários é natural e até saudável", disse a VEJA a psicóloga Marjorie
Taylor, professora da Universidade do Oregon e autora do livro
Imaginary Companions and the Children who Create Them.
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......Cerca de 30% das crianças em idade
pré-escolar, entre os 2 e os 7 anos, têm ou já tiveram pelo menos um
amigo de mentirinha. Em suas pesquisas, Marjorie Taylor colheu mais de
5.000 descrições de figuras imaginárias. Elas fazem parte do universo de
meninos e meninas de todas as culturas, etnias, religiões e classes
sociais. Em algumas partes do mundo, ainda são enxergadas com as lentes
da superstição. Em Angola, na África, não é incomum que crianças
flagradas brincando com amigos invisíveis sejam submetidas a cruéis
rituais de exorcismo, para livrá-las de "espíritos do mal".
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......Os amigos imaginários tendem a surgir
na fase em que as crianças começam a perceber a existência do outro, a
compartilhar objetos, situações e emoções. As brincadeiras com essas
figuras são, desse modo, uma espécie de ensaio para a vida social, no
qual os pequenos testam suas habilidades, reforçam aspectos de sua
personalidade e, de quebra, exercitam o pensamento abstrato. Em
determinados momentos, os companheiros invisíveis podem ajudar as
crianças a enfrentar situações de stress. Em seu livro, Marjorie Taylor
narra a história de um garoto que se recusava a sair de casa, porque o
"amigo" estava doente. Na realidade, quem estava acamada era a avó do
menino. "Falar sobre o problema pelo qual o amigo imaginário passa é uma
forma de a criança revelar aos adultos seus medos e aflições", diz o
neurologista infantil Mauro Muszkat, da Universidade Federal de São
Paulo.
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......É aceitável que uma criança tenha
amigos imaginários até os 7 anos, embora o mais corriqueiro seja que
essa fantasia deixe de existir entre os 4 e os 5. No processo de
amadurecimento, muitos esquecem que criaram um. O desenhista americano
Craig McCracken, de 33 anos, aproveitou o assunto para bolar o desenho
animado A Mansão Foster para Amigos Imaginários, recém-lançado
pelo canal pago Cartoon Network. No desenho de McCracken, o casarão é
uma espécie de asilo para onde vão os amigos imaginários das crianças
que cresceram.
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......Há casos, no entanto, em que tais
figuras são inventadas como um mecanismo de fuga, para manter a criança
afastada de situações reais (veja
quadro). É preocupante quando ela sempre prefere a companhia dos
personagens invisíveis à dos meninos ou meninas de verdade. Como não é
uma experiência prazerosa, essa fantasia costuma ser acompanhada por
distúrbios do sono, oscilações de humor, enurese, entre outros
desconfortos físicos e psicológicos. Não adianta o pai ou a mãe tentar
provar que o amiguinho não existe. ......Quem
o inventou sabe que ele é imaginário. O melhor a fazer é procurar a
ajuda de um psicólogo. Esse profissional saberá aproveitar o amigo
fictício para chegar ao cerne da angústia da criança.
Fonte: edição nº 1891 da Revista Veja
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