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TEM DIAS...

 

Aneli Belluzzo Simões

   Nem imaginei que aquela topada que dei na quina da poltrona, ao me levantar da cama, já era um prenúncio da sucessão de agruras que teria que enfrentar naquele dia.

Sete e meia?? E eu aqui, ainda de pijama?

Vamos fazer jus à nossa condição feminina que, segundo confirmam reconhecidas pesquisas científicas, nos permite fazer várias coisas ao mesmo tempo, sem detrimento da qualidade de cada atividade desenvolvida.

Então, mãos à obra: escovar os dentes, trocar de roupa, dar comida para o cachorro, ligar para o escritório dando uma desculpa esfarrapada. Tudo simultaneamente, o que não é nenhuma novidade.

Rush Melhor ir de metrô porque, com chuva, de carro chego lá só amanhã.

Apesar da pressa não deixo de me incomodar com o lixo que as pessoas vão jogando pelo chão e com os ambulantes que obstruem a passagem dos pedestres nas calçadas. Vou resmungando impropérios, mastigando frases politicamente incorretíssimas, que não repetiria em voz alta nem sob tortura.

No metrô, sonho em dar uma surra de vara de marmelo no sujeitinho que empurra uma senhora de idade e ocupa o assento preferencial, colocando os pés no banco ao lado.

Todos olham e, como eu, se calam com medo do pivete.

Quando finalmente chego à estação onde pretendo descer, o celular toca.

Pânico!

Será minha chefe neurótica ou meu subchefe recalcado?

Aleluia! É meu namorado!

Coração batendo mais forte digo: Oi..., mas nem dá pra continuar porque, ato Celcontínuo, levo não um simples fora, mas um jab e um upper que me fazem perder o chão. Assim, pelo telefone, sem aviso prévio ou explicações, depois de tanto tempo de convivência.

Não dá para acreditar, afinal ele parecia ser um cara tão legal, tão amigo...

Arrasada, me torturo implacável:

“bobona, incompetente, não notou que o cara estava mais para Henrique VIII do que para Romeu?”

Melhor engolir o choro e seguir adiante, senão, além do chão, perco também o emprego.

Nessas alturas, na melhor das hipóteses, fico com as matérias preteridas. Tudo bem, nós todas preteridas!

Entro no prédio correndo, me atiro no elevador já lotado e com as portas quase fechadas.

Minha blusa descostura debaixo do braço com o esforço, mas estou a salvo!

A reunião transcorre sem sobressaltos, mesmo porque dela participamos eu e o office-boy que teve de me esperar para levar alguns documentos assinados.

CansadaSaio do prédio vazia, ou melhor, murcha, sem ânimo para levantar os pés a cada passo.

Não tenho fome, nem frio, nem sede.

Passo em frente a uma TV que anuncia que meu candidato à presidência da república despenca alguns pontos na pesquisa de intenções de voto.

Desconsolada, penso que as pessoas ainda vão jogar muito lixo pelas ruas, marmanjos vão agredir velhinhos nas ruas e nos metrôs, muitas pessoas vão passar como um trator por cima dos sentimentos das outras e, no nosso país, o voto de cabresto ainda vai reinar soberano por muito tempo.

Vou para casa, tomo um banho daqueles que lavam e levam as mágoas e as indignações pelo ralo e, ao som do Eric Clapton, tomo um Limoncello e ligo para as pessoas que me amam, aquelas com selo de qualidade.

Afinal, vez ou outra não somos de ferro.

 

A autora: Aneli Belluzzo Simões é graduada em Letras pela Universidade de S. Paulo; Pedagogia e Administração Escolar pela Faculdade de Ciências, Letras e Educação de Presidente Prudente.

- professora nas Secretarias de Educação de S. Paulo e Paraná;

- professora do curso pré-vestibular Avanço do Ensino Programado

- assessora técnica da diretoria da Federação dos Trabalhadores Rurais do Estado de S. Paulo

- assistente técnica em projetos de desenvolvimento urbano da Themag Engenharia

- elaboradora de itens para o SARESP ( Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de S. Paulo) e SIADE (Sistema de Avaliação do Desempenho da Instituições Educacionais do Sistema de Ensino do Distrito Federal).