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E sou Parkinsoniana, e daí ?

 

Carmen Mattos

 

Há pouco tempo assisti,pela televisão, a entrevista de um escritor famoso  que eu considerava um homem inteligente e culto.Porem fiquei decepcionada quando ao  lhe perguntarem quais seriam as  duas coisas que ele mais temia neste mundo,ele respondeu “Câncer e Mal de Parkinson.”

No mesmo instante, num misto de revolta e espanto, pensei : “que ignorância”.Com é que essa criatura conta,de uma forma tão dramática, para milhões de pessoas, as suas fobias,esquecendo-se, que possivelmente milhares de pessoas portadoras dessas duas “temíveis” enfermidades estivessem assistindo o programa. Será que ele não se deu conta da bobagem que falou? Será que ele não sabe que tem gente que procura nos programas de TV, soluções para seus problemas e não complicadores ?

Pobre entrevistado.Culto,mas ignorante.No seu medo,ignorou que a grande maiorias dos cânceres têm cura e que, existem outras doenças tão problemáticas como a diabetes, enfisemas,as hepatites ,etc alem das seqüelas causadas por desastres, acidentes e catástrofes.

Não devemos temer esta ou aquela doença. “Não se enfaixa a cabeça antes de quebrá-la”,diz o ditado popular.Prevenir é bom e para isso já existem muitos meios

 

Tenho uma doença, mas não sou doente

 

Nem sei quando eu me tornei uma Parkinsoniana.Pelos meus cálculos,há uns oito anos mais ou menos.Um dos sintomas mais característicos do Parkinson  é a dificuldade para escrever e  eu deixei de escrever a mão, muito tempo antes de descobrir a doença.

A outra característica é a rigidez muscular, e eu tinha rigidez na nuca sempre que sentia frio ou ao sair do banho.

Porem nada isso me incomodava. Para escrever, eu usava o computador e para o frio,bastava me agasalhar bem.

Um dia porem, os outros sintomas resolveram aparecer.Foram chegando,chegando;uma depressão aqui,um fraqueza nas pernas ali,medos incompreensíveis(sempre gostei de fortes emoções),crises de choros,irritabilidade, muita fraqueza e um leve tremor nos dedos das mãos.

“Preciso ir ao medico”pensei .

Começou então minha Via Sacra.Via Dolorosa,com medo, temendo o pior, mas com esperança de que não fosse nada mais grave.

Desconfiava e temia o Parkinson,até mais talvez, do que escritor do começo desta crônica.

Foram muitos os médicos e eu fingia ignorar o diagnostico,que,infelizmente nem sempre è conclusivo e até sua origem é desconhecida.

Fiz uma ressonância magnética e apareceu “uma leve alteração na substância negra”, indicio claro de uma guerra de morte de neurônios e que precisava ser combatida.

Mudei de neurologista nem sei quantas vezes.Fiz terapia,e aos poucos fui aceitando a doença.Precisava lutar contra o mal que estava sorrateiramente tomando conta do meu organismo,tirando-me muitas coisas,até o simples gesto de bater palmas.Começava a perder coordenação motora.Logo seria a voz e eu adoro cantar.Também me tiraria a dança. Seria outra tristeza.

Resolvi levar a sério as recomendações do meu neurologista e aos poucos fui recuperando as coisas perdidas.

No inicio da doença,mudei minha assinatura no banco e me arrependi.Em pouco tempo minha escrita voltou fluente e bonita como antes.Voltei a bater palma,bater ovos,costurar e outras  tantas coisinhas que para mim são importantes.

Por isso,faço  questão de contar nos meus livros (Momentos e O Zepelim do Silvio),livros que escrevi já com a Doença de Parkinson, os detalhes de como convivo com ELA,Como vou driblando os problemas que aparecem e a constante busca de  recursos que me ajudem a continuar tendo vida normal,fazendo praticamente tudo que sempre fiz.

A medicina está trabalhando com pesquisas interessantes.Fonoaudiólogos, terapeutas,professores de vários níveis,trabalham incansavelmente na procura da cura de todos os males,mas enquanto ela não chega,vamos viver a vida da melhor forma possível :cantando,dançando,escrevendo,amando,vivendo...

 Uns dizem -“Eu sou diabético”,outros dizem - “Eu sou tetraplégico” ou -“Sou saudável” e eu digo –“ sou Parkinsoniana...e dai´?

 

A autora: Carmen Filgueiras Lino de Mattos, nasceu em São Paulo, Capital. É licenciada em Filosofia e Letras mas preferiu dedicar-se à música, estudando (violão) participando,como cantora, de vários concertos em teatros e salas de espetáculos.

     Em 1967 ingressou no coral do Circulo Militar de São Paulo, e foi  convidada a participar do Coral da Poli, hoje Coralusp, onde é solista desde 1969.

     Foi durante 15 anos, orientadora de um programa de reeducação alimentar.Aposentou-se em julho de 2001.Desde então, dedica-se a escrever seus momentos vividos, à prática de Iyengar Yoga e ao canto.