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 Ô mundinho sem graça!
 

Aneli Belluzzo Simões
 

Antes um ator de Hollywood era como um deus.

Se fosse mulher, os homens que conseguiam dela uma foto  numa pose mais insinuante esvaíam-se em sessões de sexo solitário atrás de qualquer moitinha do quintal.

Se fosse homem, a foto de seu rosto colada num álbum alimentaria devaneios e fantasias das mulheres cujos pés eram difíceis de permanecer presos ao chão.

Locutor de rádio? Aquela voz aveludada que embalava as tardes das donas de casa poderia sair da boca de um feioso qualquer, mas isso não tinha importância porque ninguém o conhecia e para cada uma delas ele tomava uma forma diferente de príncipe encantado.

Europa? Ficava noutro mundo, no "Velho Mundo"! Um mundo de reis e rainhas, de estadistas, pessoas cultas e educadas, ricas e corajosas, pois enfrentavam guerras e guerras e não perdiam a pompa, a "noblesse".

URSS, China? Isso tudo era um mistério que só se conseguia desvendar quando algum professor de história resolvia adotar o "Burns " e castigar a turma com uma ilustraçãozinha a mais.

E os USA? Esse era o futuro do Brasil, o objeto de desejo de qualquer jovem que mascava chiclette, meninas que usavam rabo-de-cavalo e meninos que usavam topete. Era um mundo de sonhos e muita prosperidade. Ah!!! O "Sonho americano"! Quem não embarcou nessa?

Catástrofes? Só existiam em lugares longínquos, não chegavam a respingar no nosso pacato bairro, mesmo porque ficávamos sabendo do ocorrido só depois de algum tempo. 

Miséria? Os morros cariocas eram coloridos, românticos e inspiravam poetas e compositores da MPB.
 

Hoje não tem lugar para a fantasia, o sonho acabou, e de mistério só sobrou esse universo que permanece depois de todos nós, porque nosso planeta já está indo pro brejo... 

Não quero perder a capacidade de devanear, tirar os pés do chão, apesar de todas as catástrofes, dos líderes do Irã, da Coréia do Norte, do Taleban, dos dirigentes populistas da América Latina, ah!...e do funk!

E quero muito dormir, mesmo com todo esse barulho!

 

A autora: Aneli Belluzzo Simões é graduada em Pedagogia e Letras pela USP