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 Diferentes, mas unidos
Daniela Pinheiro

 

Por que nelas o QI alto atrapalha o casamento e nos homens ajuda? Metade da explicação é biológica
e a outra metade é social.
Assim também ocorre com a maioria das diferenças
entre homem e mulher que a ciência começa a desvendar.
 
......Para seres feitos da mesma argamassa, mulheres e homens deveriam ser bem mais parecidos do que são. Uns chegaram a ver diferenças planetárias entre os dois sexos, isolando-os em Marte e Vênus. Em todos os tempos o abismo a separar os dois sexos só foi superado pelo mistério da atração entre os opostos. A novidade comum às mais recentes pesquisas é que existem, sim, grandes diferenças biológicas, celulares, de estrutura corporal e de conformação e química do cérebro que permitem responder àquela pergunta do professor Higgins no maravilhoso musical My Fair Lady (Minha Bela Dama): "Por que as mulheres não podem ser mais parecidas com os homens?". À luz da ciência mais atual, a resposta é simples: "Porque elas não querem". Ou melhor, porque ao longo da evolução da espécie humana elas fizeram escolhas que as levaram a desenvolver outras habilidades mentais e corporais mais sublimes e vitais para a sobrevivência da espécie, sua evolução cultural e tecnológica. Ao contrário dos animais, os bebês humanos nascem totalmente desaparelhados para a vida. A espécie humana também é a que amadurece sexualmente mais tarde. Essas duas características biológicas deram às mulheres o tempo necessário para exercer o papel – além do de nutrizes e de fontes de carinho – de transmissoras da cultura familiar de uma geração para a seguinte.
......Os homens nunca entenderam bem essa situação. Para ficarmos com o simpático professor Higgins: "As mulheres são irracionais... sua cabeça é recheada de algodão, palha e farrapos... elas são irritantes, vacilantes, calculistas, agitadas... são bruxas que enlouquecem qualquer um". Para Higgins, os homens, ao contrário, são seres equilibrados, cerebrais, ponderados e de bom senso. Na semana passada, em Brasília, uma maioria de senhores decidiu aprovar na Câmara dos Deputados uma emenda que retira do Código Penal a expressão "mulher honesta" e acaba com o crime de adultério. "O Congresso está fazendo a limpeza de entulho que não tem mais aplicação do Código Penal. Não deixa de ser uma vitória das mulheres, pois se trata de uma expressão altamente preconceituosa", diz o advogado Arnaldo Malheiros.
......No campo científico, pela primeira vez, pesquisadores estão tendo sucesso em desvendar clichês e explicar a razão do surgimento de certos estereótipos resistentes no que diz respeito à relação entre mulheres e homens. Há avanços em todos os campos e muitas das descobertas, pela primeira vez, inter-relacionam a psicologia com a sociologia, a medicina com a antropologia, a história com a biologia. ......Por isso, as respostas, embora não totalmente satisfatórias, são bem mais aceitáveis do que os preconceitos arraigados em séculos de incompreensão mútua.
......Um bom exemplo vem do Reino Unido. Os cientistas de quatro universidades (Aberdeen, Edimburgo e Glasgow, na Escócia, e Bristol) pesquisaram durante trinta anos o que parecia ser apenas uma observação inconseqüente do senso comum: os homens temem as mulheres muito inteligentes e preferem se casar com as de intelecto inferior ao deles. Os pesquisadores acompanharam a vida de 900 homens e mulheres no decorrer de três décadas. Quando os voluntários tinham 11 anos de idade, submeteram-se a uma avaliação de QI. Aos 40, foram convidados a falar sobre sua vida amorosa. O que se descobriu? Que a maioria das mulheres com QI alto foram as pessoas da amostra com maiores dificuldades para se casar e se manter casadas. A mesma pesquisa revelou que possuir QI elevado teve para os homens o efeito oposto. Quanto mais inteligente, mais facilidade teve o homem para se casar e manter o casamento estável. O estudo mostrou que a possibilidade de se casar aumenta 35% nos homens para cada 16 pontos a mais de QI. Para elas, esses mesmos 16 pontos a mais de inteligência significaram chances 40% menores de subir ao altar.
......A pesquisa suscitou polêmica em todo o mundo. O que ela mostrava, afinal? Que os homens preferem as mulheres burras? Ou a explicação deveria ser buscada no lado delas e se chegar à conclusão de que as mulheres inteligentes são tão seletivas que não é qualquer marmanjo que as satisfaz como marido? As explicações surgiram de diversas áreas da comunidade acadêmica. Os pesquisadores do Reino Unido revelaram mais tarde que utilizaram outro indicador além dos testes de QI. Eles mediram também a relação entre os salários auferidos por mulheres e por homens e suas chances de se casar. Descobriram que quase 90% dos homens bem remunerados pesquisados estavam casados. Entre os menos abastados e com menos anos de estudo esse número era de 80%. Já entre as mulheres os ganhos elevados tiveram o efeito estatístico oposto. Cerca de 80% das profissionais de alto nível estavam casadas. Entre as mulheres com ganhos menores e cargos mais baixos, o índice chegava a 86%. A diferença entre os porcentuais pode parecer pequena, mas tem valor em uma amostragem científica.
......"Aos 20 anos, você quer uma relação, mas sabe que tem de se dedicar totalmente à carreira. Aos 30, o momento é perfeito, mas seria melhor se dedicar um pouco mais. Aos 40, os homens querem sair com as de 20. É complicado", diz Isabel Branco, 42 anos, solteira, diretora da divisão de luxo da L'Oréal. Outra explicação é que as mulheres bem-sucedidas o são justamente por ser muito mais exigentes. Ou seja, para elas o parceiro perfeito é muito mais difícil de ser encontrado. "Elas querem alguém que esteja bem de vida, razoavelmente bonito, sensível, bom amante, que entenda de vinhos e ainda adore ópera. Elas desejam alguém que seja de seu próprio nível ou esteja acima dele. Têm muita dificuldade em lidar com sujeitos que ganham pouco ou são pouco cultos", diz a psicanalista Magdalena Ramos, coordenadora do núcleo de casal e família da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. É também a opinião da advogada Luciana Galhardo, 36 anos, solteira, considerada uma das maiores tributaristas do país. Diz ela: "A gente começa a trabalhar, a ganhar bem e, obviamente, fica mais seletiva. Não é qualquer um que pode se candidatar a passar a noite de sábado conosco".
......Um outro estudo da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, publicado no mês passado, coloca mais lenha na fogueira. A pesquisa revela que os homens preferem casar-se com mulheres que tenham uma profissão considerada inferior à deles. No levantamento, homens e mulheres ouviam a descrição oral de perfis de pessoas imaginárias, que incluía a explicação sobre o cargo ocupado e a aparência física. Em seguida, eram convidados a atribuir notas sobre o interesse despertado neles pelos perfis descritos. A maioria dos homens preferiu mulheres em funções subordinadas às deles. Já elas foram praticamente unânimes em optar por parceiros em cargos de chefia. Afirma o psiquiatra paulista Luiz Cuschnir, especializado em questões de relacionamento: "Em pleno século XXI, falar que o homem precisa ser o provedor como acontecia no tempo das cavernas pode soar estranho. Mas, depois de tantos anos de pesquisa, concluímos que infelizmente é isso mesmo: muitos homens ainda querem ser hoje como eram nas cavernas". As mulheres têm a mesma impressão. "Essa dificuldade de manter uma relação se dá pela dificuldade de partilhar as tarefas domésticas. Ela trabalha tanto quanto ele, mas na hora da casa o homem espera que ela faça tudo. ......Uma mulher bem-sucedida não aceita isso", diz Cláudia Costin, secretária de Cultura de São Paulo e ex-ministra da Administração. ......Casada há dezesseis anos, Cláudia se acha uma exceção: "O marido tem de ter uma cabeça muito boa. A maioria não tem". A hipótese entrevista pelos estudiosos também remonta a tempos imemoriais. Ela dá conta de que muitos homens acreditam que parceiras em cargos elevados, mais inteligentes e com salários mais altos têm maior probabilidade de traí-los do que as que ganham menos do que eles e são menos articuladas intelectualmente. Conclui a economista Maria Sílvia Bastos, ex-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional, 47 anos, atualmente sem namorado: "A mulher poderosa inibe os homens. Eles não conseguem ter do lado uma mulher que brilhe mais do que eles. É muito difícil mesmo".
......As diferenças entre homens e mulheres são menos preto-no-branco do que se imagina. Elas se revelam numerosas, e suas nuanças são fascinantes. O tema ganhou maior relevância ultimamente por atrair a atenção imediata das pessoas e por ajudar a prevenir e tratar doenças. Saber se determinado distúrbio é mais comum em um dos sexos ou como uma mulher ou um homem se recuperam de um mal de maneira diferente pode levar a um diagnóstico mais rápido e a uma prevenção mais efetiva. No mês passado, especialistas da Universidade John Moores, na Inglaterra, desvendaram uma das questões mais intrigantes sobre a diferença entre os sexos: por que as mulheres vivem mais. É uma descoberta que, a longo prazo, será fundamental para tratar doenças ainda incuráveis. Em países em desenvolvimento, mulheres chegam a viver até seis anos mais que os homens. E, de acordo com a pesquisa, uma das principais razões é que a curva de envelhecimento do coração das mulheres é muito mais suave do que a dos homens. Ao chegar aos 70 anos, o coração masculino pode ter perdido 25% de sua capacidade de bombeamento de sangue. O feminino pode atingir essa idade avançada praticamente intacto. "O mistério que ainda permanece é por que o homem perde tão rapidamente essas células musculares de contração e as mulheres não", afirma David Goldspink, responsável pelo estudo.
......O debate sobre a diferença entre os sexos é polêmico e quase sempre pode soar politicamente incorreto. Há dois meses, quando Larry Summers, reitor de Harvard, afirmou que a discrepância no número de homens e mulheres em carreiras de engenharia e matemática poderia estar ligada a talentos inatos para cada sexo, houve uma celeuma. A ciência mostra que as mulheres tendem mais às ciências biológicas do que às físicas. "E isso nada tem a ver com maior ou menor inteligência. São habilidades, aptidões. Seria ridículo dizer que não existem excelentes mulheres na matemática. Ou homens que vivem pendurados ao telefone", afirma Paulo Bertolucci, neurologista da Universidade Federal de São Paulo. Só no último ano foram publicados mais de cinqüenta artigos sobre essa questão nas três maiores revistas científicas do planeta (Science, The Lancet e Nature) tratando do assunto no âmbito da memória, da fala, do uso da linguagem, da organização espacial, da capacidade de fazer contas, da infidelidade e até do estímulo sexual. Cérebro, genes e hormônios formam o triunvirato da caixa-preta do corpo humano e, sobretudo, da origem da diferença entre os sexos.
......Quando a ciência se propõe a desvendar em que aspectos comportamentais homens e mulheres diferem, o que ela faz é medir a atividade cerebral de cada um em situações específicas. Por exemplo: num experimento, pesquisadores da Indiana School of Medicine monitoraram cérebros femininos e masculinos para saber como processam informações. Cada participante do grupo ouviu um trecho de um livro do escritor John Grisham enquanto o cérebro era monitorado por ressonância magnética. Nos homens, a atividade dominante se concentrava no hemisfério esquerdo do cérebro e, nas mulheres, nas duas metades. Isso revela que eles digeriam as informações de maneira lógica, linear, ao passo que as mulheres também recorriam ao lado que trata das emoções, da imaginação e da experiência. Nelas, ocorrem quatro vezes mais conexões entre os dois lados do cérebro do que nos homens. É isso que faz com que as mulheres consigam transferir muito mais informações, com velocidade muito superior, processá-las e ainda lhes dar um componente lógico.
......Uma das pesquisas mais importantes trata da área do cérebro responsável por estimar tempo, velocidade, visualizar objetos em terceira dimensão e resolver problemas de matemática lógica. O estudo, publicado no jornal americano Cerebral Cortex, revela que o lobo parietal inferior, envolvido em tarefas matemáticas, é maior no cérebro masculino. Isso faz com que os homens percebam mais facilmente quão rápido algo se move ou girem mentalmente um objeto tridimensional. E mesmo a capacidade de realizar equações matemáticas parece ter um fundo genético. Eles seriam melhores nos testes de raciocínio lógico e elas, nos de cálculos matemáticos. ......Especialistas acreditam que o fato pode justificar por que há mais homens arquitetos, matemáticos e pilotos de avião. Nas mulheres, provou-se que duas regiões cruciais da linguagem no cérebro (nos lobos temporais e frontais) são maiores do que nos homens – o que deixaria clara a maior aptidão feminina para a fala e a expressão dos sentimentos.
......Aspectos folclóricos da personalidade de homens e mulheres também foram examinados, como a propalada boa memória feminina. ......De fato, ao viverem experiências emocionais intensas, elas ativam maior número de áreas do cérebro do que os homens. Ou seja: guardam mais as lembranças. Eis por que elas dificilmente se esquecem do primeiro beijo ou da última briga. Sobre a suposta dificuldade em ler um mapa de ruas há também uma explicação. Ficou provado que as mulheres se localizam mais facilmente quando usam referências físicas e não subjetivas. Elas utilizam mais a memória e a visão do que decoram marcos quilométricos e declinações magnéticas em cartas de navegação.
......As diferenças na vida sexual de homens e mulheres merecem crescente atenção. Um amplo estudo publicado na revista Nature Neuroscience, em 2003, apontou uma eventual origem cerebral para a infidelidade masculina. A pesquisa mostrou que homens e mulheres têm partes diferentes do cérebro ativadas diante de um estímulo sexual. Nos homens, há altos índices de ativação da amígdala cerebral e do hipotálamo, estruturas que controlam a emoção e a motivação, em comparação com o cérebro feminino. Resume a neurologista Suzana Herculano-Houzel, da Universidade Federal do Rio de Janeiro: "Na verdade, até cenas sem teor sexual foram suficientes para excitar a amígdala masculina. É a tal história de por que os homens se excitam com qualquer rabo-de-saia. Pode parecer grosseiro, mas é isso mesmo". Outro trabalho, da Universidade Northwestern, em Chicago, descobriu que as mulheres têm padrões de excitação sexual mais amplos do que os dos homens. Diante de fotos de várias pessoas nuas, homens heterossexuais se excitaram apenas com imagens de mulheres, enquanto as mulheres apresentaram um padrão bissexual. Ou seja: excitaram-se da mesma maneira com imagens de ambos os sexos em atos eróticos. Todas essas pesquisas precisam ser tomadas com uma pitada de sal e uma tonelada de bom senso. Determinar o que é biológico e o que é socialmente definido no comportamento humano é um campo de investigação que ainda está na fase de fazer os grandes questionamentos. A fase das respostas conclusivas ainda está por vir. Ela será ainda mais excitante.
 
Ele só pensa naquilo
......Pesquisas mostram que homens e mulheres têm áreas diferentes do cérebro ativadas por um estímulo sexual. Nos homens, há altos índices de ativação da amígdala cerebral e do hipotálamo, estruturas que controlam a emoção e a motivação. A mesma cena erótica provoca no cérebro das mulheres outro tipo de reação. Reside aí boa parte das incompreensões e insatisfações mútuas dos casais na cama.
Sexo, ciência e bate-boca
......É próprio do ser humano buscar respostas absolutas para questões que não as comportam – e não há nada no mundo que impeça que elas vivam pairando no ar. As questões vão do metafísico (Existe vida depois da morte? Para onde vão as canetas esferográficas que desaparecem de dentro da gaveta?) ao altamente especulativo (Política e ética são compatíveis? Quem é mais inteligente, a mulher ou o homem?). Esta, a que nos interessa aqui. Pessoas inteligentes jamais deveriam enunciá-la, mas justamente elas vivem caindo na armadilha – faz parte do perfil de quem tem gosto pelo risco. O último incauto foi Larry Summers, economista brilhante, catedrático aos 28 anos, ex-secretário do Tesouro e desde 2001 reitor de Harvard.
......Num discurso cheio de malabarismos intelectuais, em janeiro, Summers falou sobre fatores que afetam o desempenho das mulheres na carreira acadêmica, em especial na área de exatas. A idéia era reforçar o combate à discriminação, mas deu tudo errado. Ao entrar no terreno pantanoso do que é intrínseco, ou biologicamente determinado, e do que é adquirido, ou culturalmente incutido, nas diferenças de desempenho entre mulheres e homens, ele inclinou-se mais pelo primeiro fator. As palavras fatídicas foram: "No caso específico da ciência e da engenharia, existem questões de aptidão inata, e essas considerações são reforçadas por fatores menos importantes envolvendo a socialização e a discriminação". Traduzindo: mulheres são naturalmente menos dotadas para as ciências exatas.
......Nenhuma surpresa que o discurso tenha provocado mais uma batalha na chamada guerra cultural americana. De um lado, hostes femininas revoltadas, apoiadas pelas forças liberais, pedindo a cabeça (ou alguma outra parte corporal) de Summers, acusado de misoginia, preconceito e ignorância. De outro, súbitos e improváveis aliados conservadores (Summers foi do governo Clinton, o que o torna praticamente um comunista para a direita americana), gritando que tudo era fruto do pensamento politicamente correto que transformou Harvard num madraçal de intolerância e patrulhamento à liberdade intelectual.
......Ninguém saiu do bate-boca capacitado a responder à pergunta irrespondível (quem é mais inteligente?). Mas, pelo lado do humor, pode-se dizer que as mulheres saíram perdendo. Se forem muito brilhantes, como se diz na reportagem ao lado, terão menos chances de se casar. Mas nem assim conseguirão fazer carreira em Harvard. Só não precisarão se preocupar com Larry Summers. Já pensaram no que ele ouviu da mulher?
Fonte: Este artigo foi publicado na edição nº 1894 da Revista Veja.
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