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Demência em jovens pode estar
associada à infecção por HIV
Diagnóstico
tem base clínica, mas tomografia e ressonância podem ajudar. E o
tratamento, além dos antiretrovirais, requer medicamentos psiquiátricos
Quando se pensa em demência, logo associamos a idosos em função do
quadro degenerativo que vem com a velhice. No entanto, nem todo tipo de
demência ocorre em idosos. De modo geral, sabe-se que a demência causada
por infecções no Sistema Nervoso Central (SNC) costuma ser rara entre os
idosos e mais freqüente entre jovens. De acordo com a equipe de
infectologia do Hospital e Maternidade São Camilo, diante de um quadro
de demência em jovens deve-se considerar o abuso de drogas e a infecção
pelo HIV – Vírus da Imunodeficiência Humana ou por outros vírus
conseqüentes à aids (síndrome da imunodeficiência Adquirida).
Desde o início da epidemia de aids, tem sido detectado RNA (material
genético) do vírus no cérebro de pacientes com HIV, bem como se
constatou a ocorrência de crises convulsivas sem lesão identificável em
até 5% dos pacientes soropositivos (pessoas que ainda não desenvolveram
a aids, mas têm os vírus).
Para os especialistas, os vírus entram no Sistema Nervoso Central
possivelmente dentro dos macrófagos (células de defesa orgânica) e, ao
saírem dessas células, produzem uma meningoencefalite da qual o paciente
se recupera, porém, com o passar do tempo e com a conseqüente diminuição
da vigilância imunológica, esses vírus começam a se multiplicar no
cérebro originando os quadros demenciais.
Descobertas recentes apontam inclusive que a destruição dos vírus pelas
células chamadas mielomonocitos no Sistema Nervoso Central gera, como
subproduto, um material viral neurotóxico. Essas substâncias, junto com
moléculas produzidas pelo próprio organismo, podem conduzir os neurônios
à morte.
Quais são os sintomas da demência
por HIV?
O quadro típico da demência é caracterizado pela perda gradual da
memória para fatos recentes e, posteriormente, a pessoa começa a ter
dificuldades de linguagem tais como para encontrar palavras e para lidar
com conceitos abstratos. Além disso, ocorrem alterações do comportamento
e da coordenação motora, geralmente irritabilidade, atitudes
inconvenientes e apatia. Com o progredir da doença outras áreas são
afetadas e a pessoa passa a ter dificuldades para atividades mais
corriqueiras e, finalmente, chega à dependência total. O quadro, em
pacientes com HIV ou com aids já deflagrada, pode se manifestar,
inicialmente, por lentificação psicomotora, delírios ou até mesmo
quadros psicóticos.
A queixa comum das pessoas com demência pela AIDS costuma ser a
dificuldade de concentração e memória, que podem até interferir nas
atividades cotidianas, profissionais, familiares e sociais. Há,
portanto, uma dificuldade em manter o desempenho profissional e uma
tendência ao isolamento social, com um aspecto geral de apatia e
empobrecimento das respostas emocionais. A pessoa pode também ficar
irritada, ter comportamento social inadequado e períodos de
desorientação temporal e espacial.
Sempre será bom lembrar que o HIV não é a única causa da demência em
pessoas que têm aids. O declínio imunológico progressivo do organismo
abre as portas para infecções cerebrais por outros vírus, bactérias e
organismos. Essas infecções secundárias do SNC são chamadas de infecções
oportunistas e se tratam de efeitos colaterais da presença de HIV. Uma
importante infecção viral oportunista que pode causar demência na AIDS é
a encefalite pelo vírus do herpes. Outra infecção relacionada à demência
na aids, esta não viral, mas por protozoário, é a neurosífilis, que
estava em declínio até o início da epidemia de aids, quando ressurgiu de
maneira assustadora.
A demência tem uma progressão variável, alguns casos evoluindo de forma
rápida, em 3 a 6 meses, ou outras o quadro pode durar de 1 a 2 anos. Os
sintomas da demência por HIV podem ser agrupados em 3; cognitivos,
motores e comportamentais.
Dentre os cognitivos estão esquecimentos (mas as recordações distantes
podem permanecer intactas); dificuldades na concentração e no pensamento
complexo; dificuldades de linguagem, os quais resultam, muitas vezes na
limitação da linguagem a frases curtas, respostas de uma só palavra, ou
a apenas falar quando lhe falam. Já os motores compreendem falta de
jeito para atividades mais delicadas; movimentos lentos e inseguros;
movimentos bruscos dos olhos; e fraqueza das pernas. Entre os
comportamentais estão mudança de personalidade; perda de apetite;
isolamento; apatia; falta de motivação; respostas emocionais
inapropriadas, tais como rir de algo triste; oscilações acentuadas do
humor, manias ou impulsos suicidas; e alucinações.
Tomografia e ressonância ajudam no
diagnóstico
Embora a Tomografia Computadorizada cerebral não seja suficientemente
sensível para detectar alterações da demência no cérebro, ela pode
identificar determinadas infecções oportunistas, também compatíveis com
a demência da aids. Já a Ressonância Magnética cerebral, por sua vez,
pode revelar alterações na substância branca do cérebro em pessoas com
aids e portadoras de demência. Portanto, apesar deste exame não oferecer
confiabilidade plena para diagnóstico de demência, ele pode contribuir
para um diagnóstico mais acurado.
O exame clínico para diagnóstico da demência na aids continua sendo o
método mais seguro. Trata-se da avaliação neuropsiquiátrica, capaz de
chamar a atenção para mudanças leves e até iniciais da demência
provocada pelo HIV ou pelas infecções oportunistas do SNC. Implica
testar a memória, a concentração, a rapidez de pensar e de agir.
A análise do líquido cefalorraquidiano é um exame que também contribui
para o diagnóstico de infecções cerebrais. As anomalias neste líquido
podem incluir o excesso de glóbulos brancos, proteínas e anticorpos,
como a imunoglobina G (IgG), a presença dos próprios vírus e de
proteína.
Tratamento
O tratamento para a demência por HIV inclui o constante monitoramento
para correlacionar os níveis de células de defesa do organismo
(linfócitos CD4 e CD8) e carga viral associada à presença de distúrbios
psiquiátricos (episódio depressivo maior, risco de suicídio, transtorno
do pânico, fobia social, entre outros) em cada paciente. Esses dados
indicam ao infectologista o momento de iniciar uma terapia
antiretroviral que ajudará em parte a conter a demência por HIV. Embora
a terapia antiretroviral possa reduzir o grau de deterioração
neurológica, o tratamento dos sintomas psiquiátricos é um importante
coadjuvante no controle de demência do HIV. |