As coisas que (ainda) podemos
mudar
Marli Gonçalves
O mundo
pode ser dividido em coisas que sabemos que podemos mudar
e outras que,
temos a certeza, não adianta nem tentar.
Por favor, todos, vamos tentar
nos mexer em alguma direção,
para conseguir um futuro sem volta.
Sinto um desânimo geral. Talvez seja uma TPE coletiva,
a proximidade das eleições, a vontade de também ganhar um pouco; pelo
menos um lugar ao Sol. Em alguns, da minha ou de gerações mais próximas,
reparo que há um cansaço, uma bolsa de olheira mais profunda debaixo dos
olhos. Tantos ideais, ideias, idealizações, em nome dos sonhos, das
utopias. Foram tantas as reuniões, passeatas, protestos. Quantas
encrencas! Quantas discussões acaloradas, amizades desfeitas, vidas
levadas, em nome de dogmas. De discursos, sim, no papel - não, o
Éden não está aberto - e que propunham sociedades perfeitas, desde
que "os" seguissem - vindos da direita, ou da
esquerda, do céu ou do inferno. Desde sempre divididos em torcidas com
cores e bandeiras, slogans e paixões.
Uma maçã proibida, um pecadilho, e nos dividimos.
Assim é na política, na religião, ou nos costumes sempre tirados pela
média, que é uma medida muito ruim. De repente, aqui e ali, caem bombas
no nosso colo, batemos a cara na porta. Ainda atordoados vemos que não
fizemos nem metade do que podíamos - impedidos que fomos até exatamente
por quem até ali nos havia guiado. Temos amigos dos dois lados do rio,
mas destruímos as passagens. Como nem toda mulher é bunda, como
diz Rita Lee, nem todos os brasileiros, iranianos, iraquianos, afegães,
argentinos, colombianos e venezuelanos, judeus ou palestinos são
responsáveis diretamente. É a história que vai se desenrolando. Mas cada
um de nós é responsável pelo limite dessa história. Há as coisas que
podemos mudar. Ou ir mudando, como diria alguém do
telemarketing.
Toco nesse assunto porque, sinceramente, não acredito
que algumas pessoas que conheço tão bem, sei o que pensam e querem,
fizeram tanto, emburreceram. E nem quero imaginar que elas
pensem de mim o mesmo. Calma. Antes que me apedrejem, afirmo com todas
as letras: não dá para achar que temos - seja qualquer um deles
- candidatos bons, ideais, perfeitos, empolgantes à Presidência, cada um
mais chato do que o outro.
Dito isto, continuo. Mas também não dá para exagerar e
fechar os olhos para o possível e verdadeiro desastre de Dilma ser
eleita.
Estou falando sério, por favor. Não é ataque de
antipetismo, partido que ajudei a fundar e quem me conhece sabe que não
dá mesmo para taxar-me de reacionária. Também não é,
juro, amor por nenhum dos outros, pessoas, programas ou partidos. Ao
contrário, se ela fosse legal, quem como eu não sonharia em um
dia ter uma mulher no comando do país? Mas não consigo preencher
quesitos básicos com a pessoa. É apenas a lógica: que pena, o
governo atual escolheu uma péssima opção para a sucessão. Se
quiser ganhar, e quer, terá de impor, o que está fazendo de forma
verdadeiramente escandalosa. Isso não é democracia.
Agora, se você está entre os que aprovam o cara,
está é no mato sem cachorro. Mas não me venha dizer que dá para
compararela com ele, por favor! Seu
travesseiro sabe da sua vida. E do seu voto.
"Ela" nunca me fez nada, mas tenho medo de
sua flexibilidade para imposições, imposturas e impostos, além da
insegurança que demonstra atuando no papel. Tenho medo da cumplicidade
cega de sua trajetória, nos últimos anos sempre com a caneta na mão,
mandando e babando vinganças. Balbuciando palavras aprendidas e mal
decoradas, em um rococó verbal feito só para enrolar principalmente a
maior parcela da população brasileira, incapaz de entender um texto, de
ouvir com atenção. Repleto de vazios, com acentuações, tônicas e ênfases.
Se você está aqui, lendo, pensa bem. Quem é que pode mudar isso?
Você. Mas não falando entre nós, como está ocorrendo. Sabe
disso, certo? Mãos à obra!
Por mais que me esforce, temo que ter sido como alguns
acham, um (a) ministro (a) competente não quer dizer nada nessa hora.
Nem para um, que vemos há anos para lá e para cá, e que pelo menos
deixou uma obra visível e inquestionável na Saúde; nem para a outra, que
governou sem tradição e sem brilho, com o braço forte e o berro na ponta
da língua. Nem para a terceira, obrigada a se render em pontos
inegociáveis do meio ambiente.
Deles, o homem careca que pouco dorme e não sabe
sorrir é apenas o mais preparado. Sem papas na língua, infelizmente, é
ele. Com todo seu mau humor e idiossincrasias, falta de expressão de
emoção. Ele é o único que vem da linhagem política necessária para
comandar esse balaio Brasil.
A terceira, frágil via verde, é mais uma propagandista
das boas causas, no que faz muito bem, do que candidata. Quando ela fala
pelo PV, até esquecemos momentaneamente sua religiosidade pessoal que
infelizmente a impede de ver pessoal e claramente a questão do aborto,
das células-tronco, das drogas. Ela ainda é a melhor coisa
dessa campanha, o refresco que mostra uma pessoa diferente. Mulher,
guerreira, convicta, quase transparente. Palmas.
Acabou. Acabaram as opções, já que há outros
candidatos, mas nós não estamos brincando nem de autorama, nem de
trem-bala, nem de camponeses rosados.
Não é desesperador? Fica todo mundo se xingando pela
Internet, atrás de pseudônimos ou mesmo de empregos vantajosos. Os
mesmos de sempre falando as mesmas coisas, no alto de suas montanhas,
rounds assistidos hoje por uma silenciosa audiência de milhões
e que só espiam. De livre e espontânea vontade, nada de ir às ruas,
caras pintadas, camisetas coloridas, faixas, bandeiras, buzinas. Nada
para tentar mudar, anestesiados que fomos com os itamar, tancredos,
sarneys, collors. Nada de se mostrar. Eu, hein?
Estou falando sério, sim. Estou de saco cheio de ver
eu e poucos amigos louvados quase dantescamente pela nossa clareza e
coragem de escrever. Ao mesmo tempo, acusados que somos de estar "ganhando"
para pensar, disto ou daquilo. E, na verdade, sozinhos. Sem condições,
sem apoio, sem "turma". Ou vocês acham que o Serra, ou algum enviado,
vai me ligar para agradecer? Que a Dilma vai me procurar para mudar
minha opinião, ou mesmo me contradizer? Que a Marina vai aparecer na
minha frente e me abraçar?
Não, formadores de opinião independentes como nós
somos seres contagiosos, em especial nessa época. Os amigos do rei
não nos procuram porque somos oposição, como se isto nos
tornasse menores; não apenas críticos, como somos, com ideias aplicáveis.
Os inimigos do rei nos evitam porque podem pensar que eles
estão pagando... Liberdade de consciência, aqui, parece coisa de tratado
americano. Aqui rola é patrulha mesmo, mano!
Não é fácil, mas há coisas que podemos mudar, sim. Ou
pelo menos começar a pensar sobre elas. Carros coloridos estão de volta,
para mudar o cinza e preto da paisagem árdua das grandes cidades. Você
pode mudar seu estilo de vida, sua alimentação, seu rosto, seu corpo,
seu cabelo. Corta aqui, corta acolá, puxa, estica, suga. Pode trocar
cachorro por gato. Pode mudar de preferência sexual - gostar de mulher,
homem e/ou/junto.
Mas, atente: a consciência, esta, não pode mudar.
Devemos segui-la porque é nossa. Para que jamais sejamos por ela
perturbados, em nenhum momento até o fim de nossas vidas.
Faça sua parte. Colabore
com a Independência.
São Paulo, centro de velhas raposas que se misturam
às outras espécies, 2010.
A autora:
Marli
Gonçalves
é jornalista.
Sempre trabalhou com marketing político, não com mágica. Mas já viu
mágica ser feita para iludir muita gente.
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